23.4.20

Oficina da Escrita - "Uma Aventura Literária" II

Ontem dia 14 de abril, publiquei três histórias concorrentes ao concurso "Uma Aventura Literária". Hoje conheçam mais três, as do Dinis Gonçalves, João Pedro Duarte e Madalena Lopes.


Título: Peixe, Candidato à Presidência de Portugal
Autor: Dinis Gonçalves
Tudo começou no fundo do oceano. Havia um peixe chamado Eduardo que queria ser presidente do Oceano. Um dia, depois das aulas, Eduardo foi até ao seu sítio favorito: a Câmara Municipal do Recife, onde havia um mural com o registo de todos os Presidentes da Cidade. Estava ele nessa demorada contemplação, quando foi interrompido pelo seu irmão mais velho, Duarte:
- Ei, mano! O que estás a fazer aqui? Precisas de ajuda?
- Não! Só estava a ver os presidentes!
- Outra vez!? Bem, como já deves ter visto tudo muito bem, regressa a casa que a mãe está preocupada.
Chagado a casa, Eduardo depara-se com a mãe a esmagar telefones (era a sua tarefa no seu emprego), trabalho que ela adorava fazer.
- Olá, filho! Acreditas que hoje no trabalho a minha prensa hidráulica favorita estragou-se?
Sem dar continuidade à conversa da mãe, foi para o quarto e começou a pensar sobre o seu dia e reparou que ninguém acreditava nele como candidato a Presidente. Mas, lembrou-se de perguntar à mãe. Gritou, então, do quarto:
- Mãe! Acreditas em mim como Presidente da Cidade?
- É claro… que não! Vai, mas é, estudar para acabares o curso como o melhor aluno!
- Boa! Nem com a própria mãe podia contar! – pensou, Eduardo, com uma profunda tristeza.
No dia seguinte, Eduardo encheu a sua mochila com o essencial para um peixe e saiu de casa sozinho. Dirigiu-se à oficina do ferreiro da cidade dos peixes.
- Bom dia, Senhor Ferreiro! É possível construir partes robóticas do corpo humano para eu aplicar no meu corpo? Tipo braços e pernas mecânicos que me ajudassem a sair do mar!
- Gosto de desafios! Mas, como me vais pagar?
Uma questão que o Eduardo não tinha pensado, mas após breves segundos …
- Faço publicidade da sua loja! – exclamou Eduardo entusiasmado com a sua ideia.
O ferreiro aceitou a proposta e começou logo a trabalhar na encomenda feita pelo Eduardo.
Passados alguns dias, Eduardo teve as suas pernas e braços mecânicos que se adaptaram perfeitamente ao seu corpo e guardou-as na sua mochila.
Estava na hora de perseguir os seus sonhos. Como ele tinha lido na obra literária As Valkírias, de Paulo Coelho, “O mundo está nas mãos daqueles que têm a coragem de sonhar e correr o risco de viver seus sonhos”. Estava decidido, ia apresentar a sua candidatura a Presidente de Portugal. No Mar não levavam a sério as suas capacidades de gestão e de orientação do mundo aquático, talvez em Portugal reconhecessem o seu valor.
Resolveu, então, telefonar ao irmão:
- Ei, Duarte… como hei de explicar…fugi de casa! – exclamou Eduardo muito nervoso.
Discutiram, trocaram argumentos até que Duarte verificou que não conseguia desviar o seu irmão da ideia que tinha metido na cabeça.
- Decidiste, decidido está! Não vou contrariar o teu sonho, contudo aceita-me como teu gestor. Como já tenho membros robóticos para ir às reuniões no Ministério da Sustentabilidade Ambiental, será fácil acompanhar-te.
Passados trinta minutos, Duarte estava ao pé do irmão.
- Aqui estou para te acompanhar!
- Obrigada, Duarte! Fico muito feliz com o teu apoio!
- Fica sabendo que avisei os pais e, como deves calcular, não estão felizes com a tua decisão.
- Estão à minha procura? – perguntou preocupado Eduardo.
- Sim! – respondeu rapidamente o irmão.
- Oh! Então, acho que é melhor fugir daqui! – disse Eduardo enquanto punha a sua mochila às costas e iniciava a sua viagem a caminho da terra.
Quando chegou à foz do rio Tejo, colocou as peças mecânicas para se conseguir deslocar e dirigiu-se ao Palácio Ratton, onde funciona o Tribunal Constitucional para apresentar a sua candidatura a Presidente de Portugal. Quando ele disse o que ia fazer, riram-se dele: Achas mesmo que qualquer um, ainda mais um peixe, se pode candidatar às eleições? Tem de apresentar um documento 7500 assinaturas das pessoas que o apoiam nesta candidatura e angariar dinheiro para a campanha eleitoral. Eduardo ouviu tristemente o que lhe transmitiam e saiu cabisbaixo. Sentou-se no banco dum jardim a comer as suas bolachas preferidas. Até que, inesperadamente, chegou Duarte que resolveu dar todo o apoio ao irmão.
- Obrigado, Duarte! – exclamou Eduardo muito feliz.
Nos dias que se seguiram, Eduardo, na companhia do seu irmão, apresentou as suas ideias ecológicas, ideias relacionadas com a sustentabilidade do planeta.
- É um sonhador! – diziam alguns.
- Tem excelentes ideias! – exclamavam outros.
- Era fantástico se conseguisse pôr juízo na cabeça dos políticos! – desejavam muitos dos que o ouviam.
Apesar de ser um peixe, e como tal muito diferente dos outros candidatos a Presidente de Portugal, rapidamente conseguiu as assinaturas de que necessitava para se candidatar.
Agora que conta com o apoio de muitos portugueses, os peixes começaram a olhar para ele com mais confiança e resolveram apoiá-lo na sua campanha. Está claro que tiveram o apoio do ferreiro para lhes facultar a possibilidade de irem para terra. Aqui, organizaram concertos, espetáculos para acompanharem a campanha eleitoral e enviaram vídeos promocionais para os vários canais televisivos que logo o contactaram para entrevistas e debates. Em poucas semanas, o peixe Eduardo candidato a Presidente de Portugal passou a ser conhecido de todos os portugueses. No dia das eleições, Eduardo sentia-se feliz com o apoio conseguido, tinham gostado das suas ideias. Tinha sido corajoso e esperava conseguir alargar os horizontes de Portugal. Agora, tinha de aguardar, serenamente (o que estava a ser muito difícil, pois estava demasiado ansioso), pelos resultados.


Título: Estranhos Acontecimentos

Autor: João Pedro Duarte
 Era quarta-feira, sem aulas à tarde, regressava da escola com o meu irmão quando passámos pelo minimercado junto a nossa casa.
- Bbrrzz! Bbrrzz! Bbrrzz! Bbrrzz!
- Não sei o que se passa hoje com o rádio! Está constantemente com interferências! Mal consigo ouvir as notícias! – queixava-se o Sr. Inácio.
- Bbrrzz! “A cidade do Porto” Bbrrzz! “acordou repleta de anomalias” Bbrrzz! Bbrrzz!
- Anomalias? Que anomalias? – perguntou o meu irmão.
- Não sei! Talvez deem mais alguma informação! – respondeu o Senhor Inácio.      
- Bbrrzz! Bbrrzz! “Interrompemos a nossa emissão” Bbrrzz! Bbrrzz!   
- Digam lá, meus jovens, o que pretendem?
- Queremos o pão e o queijo fresco que a nossa mãe lhe pediu para guardar.
- Certíssimo! Aqui está!
- Bbrrzz! Bbrrzz! “Inacreditável…acabámos de ver cavalos com cabeça de leão…” Bbrrzz! Bbrrzz!
- O quê!? As notícias estão a ficar interessantes!!
- Vamos rapidamente levar as compras a casa e já regressamos para ouvir as notícias!
- Mãe, estão aqui as compras! Nós já vimos! Estamos no minimercado do Sr. Inácio.     
- Está bem! Mas o que se passa lá de tão interessante para estarem com essa pressa toda? 
- Na rádio estão a transmitir alguns acontecimentos estranhos que aconteceram na cidade do Porto.   
- Ah, sim! Não sabia! Há pouco ouvi as notícias na televisão e nada disseram!!!
- Até já mãe! – e saíram de casa a correr.
- Então, Sr. Inácio, o que disseram mais?
- Disseram que nos jardins havia gnomos falantes!
- Bbrrzz! Bbrrzz! “No estádio do Dragão, encontraram buracos enormes que parecem ter sido feitos por algum OVNI” Bbrrzz! Bbrrzz!
- Gostava de ir ao Porto, ver com os meus próprios olhos todas estas alterações e outras ainda não descobertas! – disse eu ao meu irmão.
O meu irmão concordou comigo e o senhor Inácio, tão entusiasmado como nós, disse:
- Se os vossos pais deixarem, não me importo de fechar a loja por um dia e ir convosco.
- Ah! Obrigada, Senhor Inácio! Vamos já pedir aos nossos pais!
- Até já, Senhor Inácio!
- Bbrrzz! Bbrrzz! Bbrrzz! Bbrrzz!
- Esperem! Escutem….
- Bbrrzz! Bbrrzz! Esta foi a nossa mentira do dia 1 de abril! Bbrrzz! Bbrrzz!
- AH! AH! AH! – foi gargalhada geral.
- Agora percebo a razão da nossa mãe não ter ouvido qualquer notícia sobre este assunto na televisão. AH! AH! AH!
- Senhor Inácio, obrigada por se ter disponibilizado para ir connosco ao Porto.
- Não precisamos de ir amanhã, mas podemos combinar um outro dia. – disse o Senhor Inácio.



Título: Viver Offline

Autor: Madalena Lopes
A hora do intervalo tinha chegado e, como sempre, estava sozinha no pátio a comer o meu pão. Estava naquela escola há pouco tempo e, ainda, não tinha amigos.
Como não tinha com quem conversar, aproveitava o tempo para observar a alegria dos passarinhos a saltitarem de ramo em ramo, as folhas das árvores a dançarem ao sabor do vento que soprava ligeiro…
- Psit…psit… - soou entre os ramos duma árvore.
- Ah! Ah! Estou tanto tempo a olhar para as árvores que já oiço sons…
- Psit! Psit! Sou eu! – respondeu a voz do cimo da árvore.
- Eu, quem? Quem me chama? – perguntei.
- PAF!!!! – e um rapaz caiu junto de si, vindo de cima da árvore.
- Opa! Que susto! Que estavas a fazer no cimo da árvore? Estás a roubar os ninhos? Ou andas a apanhar passarinhos? Escondes-te de alguém? Faltaste às aulas?
- Ufff! Tanta pergunta! Estás pior do que a minha mãe!!!
- Desculpa! Pregaste-me um susto valente e os nervos deram-me para falar…
- Então, apresento-me! Sou o Vasco e ando no 7º ano. E tu?
- Eu sou a Vitória e estou no 5º ano. O que te fez subir à árvore? Escondias-te? Ou procuravas algo?
- Ah! Ah! Ah! Voltaste à carga! Nada disso! Estive, simplesmente, a desafiar-me! Adoro experimentar novas vivências e sinto-me muito feliz quando consigo fazer algo que me parecia impossível de concretizar.
- Quer dizer que hoje fizeste algo que nunca tinhas feito? Conseguiste subir a uma árvore pela primeira vez!?
- Não é bem assim! Já tinha subido a árvores mais pequenas…e também já tinha subido a esta árvore, mas…
- Mas, o quê?
- Bem, já há alguns dias que tenho estado em cima da árvore quando tu vens para aqui lanchar! – disse o Vasco um pouco envergonhado.
- O quê? Tens andado a espiar-me? Que atrevido! O que queres de mim?
- Nada! Simplesmente, me apercebi que tu não és como as outras jovens! Não estás sempre de telemóvel na mão e a criar poses para tirar selfies. Preferes contemplar a Natureza. Isso é fantástico! Adorei ver o teu olhar sereno…o teu sorriso ao veres os passarinhos a brincarem…
Corei com as palavras do Vasco e o meu coração começou a bater com tanta força que parecia querer saltar do peito.
- Vou dizer-te um segredo: eu não tenho telemóvel! Só o meu pai é que trabalha e o dinheiro é pouco…
- Então já somos dois. Daí eu preferir inventar desafios para me ocupar o tempo…sem precisar do telemóvel.
- Bem, está na hora de irmos para as aulas! Até ao próximo intervalo…
- Está combinado! Não te esqueças, pois não tenho telemóvel para te ligar!
- Ah! Ah! Ah! – riram os dois.



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