24.4.20

Oficina da Escrita - "Uma Aventura Literária" III

Tenho vindo a publicar as histórias construídas pelos alunos da Oficina da Escrita e concorrentes ao concurso "Uma Aventura Literária". Hoje conheçam mais três, as da Sara Domingos, Sofia Farinha e Sofia Montez


Título: Livros e Companhia
Autor: Sara Domingos

Livros tristonhos amparam-se uns aos outros nas prateleiras da biblioteca e os desabafos entre eles são constantes:
- Ai,ai! Que tristeza! Ninguém me quer!
- Uff! Estou cansado de estar em pé! Só não caio porque estamos todos encostados uns aos outros e bem apertadinhos!
- Que saudades do tempo em que as crianças e jovens corriam para as prateleiras em busca das aventuras guardadas nas minhas páginas…
- Coff! Coff! Esta tosse não me larga! Deve ser da humidade! Ninguém me abre e não recebo o calor dos raios de sol!
- Snif! Snif! Não consigo deixar de chorar…era tão bom o tempo em que era segurado com carinho pelas mãos suaves das crianças…página a página recebia uma carícia…alguns gostavam tanto da história que me apertavam contra o seu peito e adormeciam abraçados a mim…
- Psiu! Vem aí alguém!
Era hora do intervalo e rapidamente a biblioteca ficou repleta de alunos, uns sentavam-se para fazer rapidamente os trabalhos de casa que não tinham feito, outros tiravam o telemóvel do bolso…alguns nem iam para as mesas junto aos livros, pois corriam para os computadores e também havia os que se sentavam nos confortáveis sofás para conversarem ou verem uma revista.
Finalizado o intervalo, voltava o silêncio e esvaziava-se a esperança de alguém trocar a aventura de um jogo no telemóvel por uma vivida através das personagens de um livro.
Um dia, a professora bibliotecária colocou uma caixa em cima do balcão com a indicação: “Sugestões para melhorar a Biblioteca”.
Passado um mês, entre todas as sugestões, a professora bibliotecária considerou que a proposta mais original e interessante era a de ter animais na biblioteca. Então, recolheu alguns gatos abandonados e comprou um aquário com peixes e tartarugas que levou para a biblioteca. Posteriormente, foi lançando desafios para cada nome de animal, no qual o nome tinha de ser inspirado em personagens de uma coleção de livros, num conjunto de livros de uma prateleira ou nos livros de um autor.
Foi uma autêntica revolução na biblioteca. Finalmente havia luz entre as páginas dos livros e o carinho confortava-os depois de tantos anos esquecidos nas prateleiras, onde só eram movimentados pela funcionária para lhes tirar o pó.
Agora, passou a ser natural ver os alunos com o gato no colo a lerem um livro. Com esta iniciativa, a biblioteca conseguiu mais leitores, mas também livros e animais mais felizes.




Título: Uma viagem à Cidade da Música
Autor: Sofia Farinha

As amigas ficaram eufóricas com a notícia: iam participar no Encontro Europeu de Flautas Transversais! O Ensemble de flautas da professora Joana fora selecionado para estar presente em representação de Portugal! Ia ser uma grande aventura; iam conhecer pessoas novas; iam tocar flauta; iam fazer amizades! No fundo, iam fazer tudo o que elas adoravam, o único problema era terem de esperar dois meses e o amigo Garcia não ter sido convocado...Humm, teria de haver alguma forma de conseguirem que ele também fosse. Assim, juntaram-se e debateram a questão. Não viam como dar a volta à situação e não podiam simplesmente pedir à professora Joana sem qualquer motivo lógico...quando, de repente, a Sofia, que tinha lido o regulamento de fio a pavio, lembrou-se: o Ensemble podia ter um acompanhador de piano e o Garcia tocava piano! Perfeito! Foi desta forma que conseguiram reunir o bando de amigos e tornar aquela uma viagem inesquecível para os quatro! Estavam longe de imaginar o quão inesquecível iria ser!
Tinham-se passado 2 meses a correr entre ensaios, tarefas da escola e demais preparativos e, finalmente, estava na hora de eles irem viajar para Viena, “a cidade da música”! Eles estavam todos tão entusiasmados que nem dormiram.
Chegaram a Viena e a professora muniu-os de mapas, de contatos via Whatsapp e de muitas recomendações quanto ao perímetro em que deviam permanecer e, por fim, lá os deixou ir ver aquela magnífica cidade! Obviamente que acharam a cidade muito bonita, mas o que mais gostaram foi o facto de estar ligada à música. Paravam em cada pequeno pormenor que encontravam e deliciavam-se a comentar, a observar e a fotografar. Excederam-se um pouco na hora marcada para o regresso...não foi agradável ter de encarar a fúria da professora Joana mas compreenderam que deviam tomar mais atenção e cuidado.
No dia seguinte, pela manhã, a professora estendeu-lhes o seu sorriso simpático e eles perceberam que já estavam perdoados. Ufa! Partiram cedo do hotel e o Ensemble dirigiu-se para o Encontro que se realizava num pavilhão com diversos pequenos auditórios. Era tudo tão fantástico que eles ficaram deslumbrados com a quantidade de flautistas, flautins e artistas. Ali respirava-se música! E o quanto eles adoravam música! 
No encontro, fizeram uma atuação tal como todos os outros e foram almoçar. Fora-lhes dada a indicação do seu espaço e das regras que deviam seguir quanto ao armazenamento dos seus materiais, pelo que todo o Ensemble deixou as suas flautas acondicionadas, tal como todos os outros. O almoço foi divertido, as brincadeiras, as risadas, a alegria de estarem num país diferente a fazer o que mais gostavam: música! 
Quando voltaram, já lá não estavam as flautas das miúdas: da Sofia, da Mafalda e da Madalena. Ficaram todos estupefatos a tentarem entender aonde poderiam estar: “alguém as mudou de local” diziam uns, “alguém as levou já para o palco” diziam outros e os mais silenciosos pensavam no pior... Durante um bocado, resolveram seguir todas as suas pistas. A professora Joana foi falar com os responsáveis, os alunos foram vasculhar todos os sítios que lhes pareceram credíveis mas depressa chegaram à mesma conclusão: TINHAM SIDO ROUBADAS!!!!!!! Todos entraram em pânico, soltavam pequenos gritos de angústia e choravam porque as flautas eram tão importantes para eles e eles eram muito unidos! Eram as flautas que os faziam felizes juntos. Chegou a polícia e começou a investigar: perguntas daqui, perguntas dali mas, no fundo, não saiu de lá com nenhuma pista de quem as tinha levado. Os quatro amigos, particularmente chateados com isso (o Garcia era pianista mas as miúdas eram as suas grandes amigas!), resolveram armar-se em detetives, aliás já não seria a primeira vez e aquele era um mundo que conheciam muito bem! Fizeram uma reunião, no quarto das miúdas, de forma a tentarem entender como encontrar pistas. Nesse sentido, a Sofia pediu aos outros que analisassem melhor a situação e que pensassem se tinham ouvido ou visto algo invulgar quando deixaram as flautas. Eles ficaram a pensar algum tempo até que a Madalena diz que tinha ouvido a Inge, uma flautista da Dinamarca, a dizer que as suas flautas eram mesmo boas e que adoraria ter uma, e, nesse instante, a Mafalda disse que viu o Frank, amigo da Inge, muito próximo das flautas, sendo que, na altura, não suspeitou de nada e a professora estava a reuni-los para irem almoçar. Não podiam acusar sem provas, mas não podiam ficar sem as suas flautas! Assim, elaboraram um plano que iriam pôr em prática no dia seguinte.
Foram os primeiros a ficarem prontos para irem para o Encontro, a professora Joana estranhou aquela disposição, afinal as flautas das miúdas tinham desaparecido mas, enquanto, não tivessem indicações por parte das autoridades, mantinham o programa.
Uma vez no pavilhão, o Garcia dispôs-se a ensaiar com o Ensemble, à exceção das miúdas que não tinham as suas flautas; assim, a professora deixou-as ficar sentadas na bancada para não lhes causar muita pressão, mas não foi por ali que ficaram...o seu plano entrou em ação.
Separaram-se e resolveram procurar vestígios das suas flautas por todo aquele espaço; todos os músicos estavam a ensaiar, pelo que seria mais fácil investigarem sem que ninguém notasse. O pavilhão era enorme e os locais onde procurar imensos, no entanto, quando a Sofia tirou um pano preto  que cobria uma parede numa arrecadação que servia para arrumar instrumentos velhos depressa identificou a sua caixa: tinha um autocolante que o seu irmão lhe dera... Retirou a sua flauta mas quando, de repente, se apercebe de dois vultos atrás de si, tocou na sua flauta as notas mais agudas que conseguiu e desatou a correr... Nisto surgem a Mafalda e a Madalena, a professora Joana e a polícia... Afinal, a professora conhecendo as suas alunas suspeitou de que poderiam estar a fazer algo que poderia ser perigoso, pelo que deixou os restantes alunos a ensaiar e quando encontrou a Madalena fê-la contar-lhe tudo; chamou a polícia e...bem, os agentes prenderam a Inge e o Frank e recuperaram todas as flautas assim que a Sofia lhes mostrou o local. Afinal, eles eram ladrões de instrumentos musicais procurados por diversas polícias europeias que nunca os tinham apanhado em flagrante, nem tinham conseguido provar que eram eles os ladrões mas, agora, graças aos quatro amigos, nem a Inge nem o Frank iriam voltar a roubar instrumentos musicais a quem tanto os estimava.
Os quatro amigos regressaram a Portugal com os restantes membros do Ensemble; tinham apanhado o susto das suas vidas mas a sua audácia tinha-os ajudado a recuperar as flautas intactas e tinha-lhes permitido desfrutar do restante Encontro e fazer uma das coisas de que mais gostavam na vida: Música.

Título: A gotinha solitária e triste
Autor: Sofia Montez
Mais uma vez tinha sido a última gotinha…não tinha chegado a tempo de ir para o copo, tal como as suas colegas. Como sempre, chegava atrasada ao seu destino, fosse ele de boca larga como uma panela, ou de boca mais estreita como uma garrafa. Já era habitual, ela era a gotinha desperdiçada que caía no vazio frio e solitário.
Entre as várias viagens, um dia foi ter ao mar, mas nem aqui no meio de tantas gotas, ela conseguia ter amigos. Se faziam uma corrida até à areia, ela nunca conseguia acompanhá-las, ia ficando para trás, cada vez mais distante até que as deixava de ver. Parecia que as suas pernas eram demasiado curtas e pesadas. Se subiam pela rocha acima para darem um triplo salto para o mar, só lá chegava quando as outras gotinhas já tinham desistido da brincadeira. Ora, assim era difícil ter amigos!!
Num final de tarde, o sol a desaparecer no horizonte, a gotinha estava em cima da carapaça de uma tartaruga quando sentiu uma gota a cair em cima dela o que provocou a queda das duas para o mar.
- Desculpa, Gotinha! Sou a Gotinha Cinza! O Cinza! E tu como te chamas?
- Sou a Gotinha Só! Como nunca consigo acompanhar as minhas colegas, estou sempre sozinha. Daí ter ficado com esse nome. E tu, donde caíste?
- Caí da casa da minha avó, aquela nuvem ali em cima! Estava a espreitar-te, debrucei-me demasiado e caí!
- A espreitar-me!?
- Sim, já tinha reparado que andavas sempre sozinha! Sabes, eu também fui para a casa da minha avó porque me sentia rejeitado pelas outras gotas! Como viste há pouco eu sou um desastrado! Qualquer atividade que tento fazer igual às outras gotas, comigo sai sempre errado, é quase certo sair disparate…por isso deixei de conviver com as outras gotas e refugiei-me na casa da minha avó.
- Hã! Apesar de seres desastrado, és muito bonito!
- Queres ir morar para a casa da minha avó? – perguntou Cinza.
- Claro! Assim fazemos companhia um ao outro e à tua avó!



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